Governo do Distrito Federal
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24/04/15 às 16h28 - Atualizado em 29/10/18 às 11h14

Audiência pública discute violência contra jovens negros

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Gestores da Semidh participam de debate na Câmara dos Deputados

Lunde Braghini
Da Ascom Semidh

(Brasília, 24/4/2015) – Dados do Mapa da Violência de 2014 mostram que, de cada cem jovens mortos no Distrito Federal, 85 são negros, o que caracteriza, na prática, uma violência seletiva contra a juventude negra de Brasília e Entorno.

O tema foi debatido por mais de três horas, na quarta-feira (22), durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Gestores da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semidh) participaram do debate como convidados.

O coordenador de Enfrentamento ao Racismo da Secretaria de Políticas para a Igualdade Racial, Carlos Alberto Santos de Paulo, disse que o grau de letalidade que atinge a juventude negra não se reduzirá enquanto não se recuperar o projeto de nação. “Não estamos pensando numa mazela social, mas nos rumos para esse país”.

Ainda, segundo o coordenador, um dos maiores obstáculos é a “política carismática” que envolve os negros na construção de “arremedo de políticas públicas, à mercê do que é possível fazer em parceria com poucos interlocutores sensíveis à questão racial”.

Outra representante da Semidh, Larissa Borges, também da assessoria da Secretaria Adjunta de Políticas para a Igualdade Racial, elencou uma série de movimentos e campanhas contemporâneas, de iniciativa do movimento negro, que denunciam e combatem o genocídio da juventude negra.

Depoimentos – Abandonado aos 14 meses de idade na Rodoviária de Brasília, Neemias MC abordou capítulos de sua vida, marcada por sucessivas falhas da família, da assistência social, da sociedade e do Estado, que falta na proteção mas não na repressão.

Ele destacou o papel que movimento hip hop teve na sua vida, no sentido de afastá-lo da violência, e denunciou o papel da mídia sensacionalista na criação de uma suspeição generalizada em relação às pessoas negras.

O cantor Gog, do movimento hip hop do DF, criticou a “morte cerebral” e os processos que minimizam a consideração das questões negras no debate público. Segundo ele, “a bala tem um retrato falado”, o que explica a cara do genocídio e do extermínio da juventude negra.

Para Gog, “o verdadeiro pré-sal brasileiro deveria ser o pré-soul”, algum tipo de tecnologia que acordasse o Estado para a riqueza presente da gente negra distante a 70 km da periferia e não numa camada fóssil a 70 km de profundidade.

Representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF, Hamilton Pereira, fez uma leitura histórica da violência institucionalizada contra o negro, que trouxe para o espaço urbano a tradição do latifúndio. Na defesa de seus interesses, lembrou ele, o latifúndio podia invocar tanto o uso da força pública quanto contratar suas próprias milícias privadas e jagunços.

Educador afro e candomblecista, Tata Luangomina denunciou a violência presente na intolerância religiosa, incompreensão institucionalizada que faz confundir a sacralização de animais com matança. “Matança é o que o Estado brasileiro está fazendo com a nossa juventude”.

Num relato rico em detalhes, Luangomina narrou a sucessão de agressões físicas e morais que sofreu em 17 de março de 2005, em um fórum em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, desde o momento em que o porteiro o barrou por usar um equeté, adereço religioso do candomblé que se usa na cabeça à semelhança do quipá judaico.

“Matamos negros porque queremos exterminar negros”, resumiu, ao final, o professor da UnB Evandro Piza Duarte. Segundo ele, a marca do racismo está no padrão de indiferença em relação ao destino e a condição das pessoas negras, produzida a partir do Estado. Para ele, ainda hoje, o principal discurso que impede a percepção da indiferença é a “democracia racial”.

Mais informações:
Ascom Semidh
3961-1782