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21/11/16 às 18h45 - Atualizado em 29/10/18 às 11h14

CORREIO BRAZILIENSE – 20/11/2016 – A abolição que não veio: às negras, o subemprego

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Para que a inserção de trabalhadoras negras no mundo laboral seja mais qualificada, não basta esperar mudanças espontâneas: especialistas defendem políticas públicas voltadas a empresas

 postado em 20/11/2016 10:01 / atualizado em 20/11/2016 10:27

 Ana Paula Lisboa

No Dia da Consciência Negra, a série “Empoderamento feminino” traz à tona dificuldades vivenciadas por mulheres pretas e pardas. Relatório do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que não há muito a comemorar e afirma que as afrodescendentes “enfrentam uma dupla discriminação no mercado de trabalho, de raça e de gênero”. Entre essas mulheres, na capital federal, a taxa de desemprego é a mais elevada, e o valor pago por hora trabalhada é o mais baixo (saiba mais em A dimensão da disparidade no DF). A exclusão se repete nos demais locais avaliados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED): Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo e Salvador.

 

Os números foram divulgados na última semana, mas eram esperados. “A negra é a maior vítima do mercado de trabalho”, pondera frei David Santos, diretor executivo da organização não governamental Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes). Na visão dele, essa realidade é fruto dos quase 400 anos de escravidão de negros no Brasil e do fato de, mundialmente, a mulher ser mais oprimida. O diretor da ONG vê poucos avanços sociais e avalia que, em muitos casos, a escravidão apenas mudou de formato.

 

“Não tem dois anos que as empregadas domésticas — em maioria, negras — foram igualadas a outros trabalhadores”, comenta. No DF, 14% das negras e 9,7% das não negras são domésticas. Mesmo entre as profissionais pretas e pardas que tiveram acesso a boa educação e ocupam posições de melhor remuneração, o racismo afeta o dia a dia. “Estive com uma dentista negra que, volta e meia, é tratada como assistente, e houve  pacientes que se recusaram a ser tratados por ela”, exemplifica.

 

Professora de comunicação e serviço social da Universidade Católica de Brasília (UCB), a doutora em comunicação e pesquisadora de raça e gênero Isabel Clavelin observa que as negras se encontram na base da pirâmide social. “Nas relações de trabalho, isso afeta objetivamente o ingresso, o acesso a promoções, a permanência, o salário… Elas se deparam ainda com outras dificuldades, como assédio sexual e moral.” Essa estrutura é perpetuada, na opinião da pesquisadora, por uma conivência das empresas com o racismo. “As companhias sabem da situação, mas pouco fazem”, diz. Exemplo disso é que as negras são apenas 0,4% das executivas do país, segundo dados do Instituto Ethos sobre as 500 maiores empresas do país.

 

Dione Moura, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), analisa que profissionais pretas e pardas enfrentam diversos obstáculos — o primeiro deles, socioeconômico, que leva a piores condições de educação. “Existe ainda uma visão de que elas são menos capazes para o trabalho”, diz a doutora em ciências da informação.

 

Estética

O racismo o perpassa, inclusive, aspectos estéticos. Em muitos casos, as próprias pretas e pardas têm em mente um ideal de beleza europeu e, em outros, há cobranças para que elas se sujeitem a ele. “Quando a primeira desembargadora negra do Rio de Janeiro — Ivone Caetano — foi tomar posse, um desembargador perguntou se ela participaria da cerimônia com aquele cabelo”, exemplifica frei David Santos.

 

“O preconceito não é causado pelo cabelo, pelo turbante ou pela roupa, mas pelo que as pessoas acham que isso significa. O brasileiro tem dificuldade de lembrar o período de escravidão, então optou por negar os elementos africanos. Há uma fuga em reconhecer a identidade negra, e as dívidas decorrentes dela. É uma tentativa de apagar essa ancestralidade que foi injustiçada. O mesmo acontece com os indígenas”, analisa Dione Moura.

 

Essa tentativa de eliminar o débito social também poderia explicar a rejeição às religiões de matriz africana. “Os escravos foram impedidos de cultuar deuses próprios. Até hoje, esses ritos são considerados, por muitos, como inapropriados”, comenta Isabel Clavelin. “Isso também afeta o mundo do trabalho, pois pessoas dessas religiosidades são julgadas como macumbeiras. É mais uma discriminação”, diz.

 

Soluções

“A humilhação que a mulher negra passa, desde o período colonial, só será vencida com o trabalho conjunto da sociedade e com boas políticas públicas”, propõe o frei David Santos, da Educafro. As pesquisadoras Dione Moura e Isabel Clavelin concordam. “Precisamos de medidas que responsabilizem as empresas. Não dá para o mercado se regular. Iniciativas de adesão voluntária — como o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, do governo federal — têm pouca adesão. É preciso criar sanções”, defende Isabel. Para ela, como as organizações, em geral, não enxergam a falta de inserção de trabalhadoras negras como um problema, cabe ao governo trabalhar essa questão de cima para baixo.

 

Opções que se mostraram positivas, na visão da professora Dione Moura, são a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade de temas sobre a história e a cultura afro-brasileiras no ensino básico, e as cotas raciais no ensino superior público, para  aumentar o número de profissionais graduados negros. No entanto, é preciso ter mais políticas públicas efetivas para o mercado de trabalho. Ela cita os Estados Unidos como a nação com ações mais fortes com relação a isso. “Esse país desenhou o perfil das empresas para perceber se elas são inclusivas ou não. Mesmo lá, a solução não foi definitiva (já que essas medidas não acabam com o racismo, mas garantem acesso a melhores condições socioeconômicas): há poucos dias, a primeira-dama Michelle Obama foi alvo de racismo, e isso teve consequências.” 

Mão de obra negra 

Confira relatos de trabalhadoras que enfrentaram obstáculos por conta da cor da pele

 

Luto transformado em luta

Conhecida como Daniblack, a administradora Danielle Morais, 28 anos, é terapeuta comunitária do Jovem de expressão, projeto social da Caixa Seguros, que visa afastar jovens de Ceilândia e Sobradinho da violência e contribuir para o desenvolvimento deles, por meio de oficinas profissionalizantes e culturais. Além da atuação no projeto, Daniblack é microempresária, responsável pela Coroa Abayomi, por meio da qual visita escolas, ONGs e outros espaços promovendo conversas sobre raça e gênero, além de oficinas de turbante.
A jovem, que trabalhou como auxiliar administrativa e vendedora, se engajou no movimento negro e o transformou em profissão depois de um episódio traumático. “Meu irmão sofreu violência policial e foi assassinado por arma de fogo. Antes, eu não tinha noção da importância de ser como uma pessoa preta da periferia. Transformei meu luto e minha dor em luta”, revela. Outra fonte de sofrimento que ela reverteu foi o racismo. “Sempre me discriminaram por ser preta, sempre fui a negra da turma, sofri bullying”, conta ela, que defende a bandeira LGBT.

“Sexualmente, eu me considero livre de rótulos. Posso me apaixonar por um homem, por uma mulher, por um drag. As pessoas têm muito preconceito contra isso também”, percebe. “No mercado de trabalho, passei por situações de discriminação em entrevistas de emprego por usar rastafári e turbante. Perguntavam se eu usaria aquele cabelo quando fosse trabalhar ali. Antes de me verem, eu ia bem nos processos seletivos, mas, cara a cara, diziam que eu não tinha o perfil procurado”, recorda. “Se eu tivesse me rebaixado aos padrões cobrados, alisando o cabelo, talvez tivesse sido empregada, mas não estaria realizada como me sinto hoje, num lugar que me contratou por eu ser como sou.” No Jovem de Expressão, Daniblack promove diálogos com jovens sobre racismo, cotas, gênero, intolerância religiosa e outras temáticas. Quando adolescente, ela foi beneficiada pelo projeto que a ajudou a ganhar consciência de gênero e raça. “Isso me empoderou.”

 

Preconceito persistente
Graduada em biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB), Dandara Baçã, 29 anos, é servidora pública do Ministério da Saúde há dois anos e percebe ter sofrido situações de preconceito tanto lá quanto na esfera privada. “Trabalhei pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) na UnB, na Faculdade Anhanguera e na Unip (Universidade Paulista) e foram oportunidades difíceis de conseguir, pois, em diversos processos seletivos, os empregadores perdiam qualquer pressa em contratar quando me viam e sempre diziam que iam deixar para preencher a vaga depois. Numa seleção para trabalhar com um software com o qual eu tinha experiência, preferiram contratar uma pessoa recém-formada, branca, por exemplo”, recorda.
“A consciência racial é nova para mim, então, em muitos casos, só percebi que tinha sido discriminada depois. Em todos os espaços, vejo que eu sempre preciso demonstrar mais resultado, estudar mais, citar vários autores quando for dar meu parecer técnico — e a pessoa branca não precisa desse respaldo”, conta. Uma mensagem que ela deixa para jovens negras é a de não se sujeitar a empregos que não respeitam direitos trabalhistas. “É melhor se dedicar a estudar até encontrar algo melhor do que ficar num trabalho que é similar a escravidão”, garante.

O racismo a acompanha desde cedo. “No ensino fundamental, num caso concreto, um menino me chamou de macaca. Fiquei bem triste”, lembra. No entanto, os casos de exclusão são mais amplos. “Nunca fui par de ninguém na quadrilha da escola, nunca fui cotada para ser rainha da pipoca. Diziam que meu cabelo era de bombril, de piaçava. Eu não percebia isso como racismo porque eu também o achava ruim na época”, diz ela, que parou de alisar as madeixas e assumiu um vistoso black power. “Foi uma desconstrução muito grande para mim, pois meu ideal de beleza era o cabelo liso.”

 

Leia   
 O livro dos negros 
O nome da obra é o título de um documento histórico mantido por oficiais navais britânicos. Aqueles que não tinham o nome no livro não conseguiam liberdade. Aminata Diallo, sequestrada ainda criança na França e vendida como escrava na Carolina do Sul, percorre uma longa trajetória para conquistar o direito de ser livre. A protagonista é fictícia, mas representa a situação das negras que viveram esse período.

Autor: Lawrende Hill
Editora: Primavera Editorial 
408 páginas 
R$ 39,90

 

Desbalanço no topo

A pesquisa O perfil social e racial das 500 maiores empresas do país, do Instituto Ethos, mostra que as mulheres – independentemente de raça — estão sujeitas a desigualdades, que aumentam conforme o nível do cargo: elas são 58 dos estagiários, 55% dos aprendizes e apenas 13,6% das executivas e 11% dos membros dos conselhos de administração. Já as negras aparecem com ainda mais desvantagem: elas são somente 0,4% do quadro executivo. Na edição anterior do estudo, o valor era de 0,6%, o que revela piora na inclusão.

Trabalhadores em 
cargos executivos 
correspondem a 

86,4% 
dos homens em geral

13,6% 
das mulheres em geral

0,4% 
das mulheres negras

Fonte: Correio Braziliense