Governo do Distrito Federal
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21/09/16 às 17h57 - Atualizado em 29/10/18 às 11h14

DEU NO CORREIO – DF registrou 13 feminicídios e 19 homicídios contra mulheres este ano

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Ontem, uma manicure foi atingida por golpes de faca, desferidos pelo marido, que, em seguida, tenta se matar


O volume do carro de som parecia não romper o silêncio da vizinhança, localizada duas ruas abaixo do Centro de Ensino Fundamental 12 de Ceilândia (CEF 12). Os moradores do local mantinham-se sem palavras enquanto o veículo anunciava a venda de pamonha. Ali, o sentimento era de choque. Na residência, que fica no centro da avenida e tem cerca de 12 casas de cada lado, o motorista Beny José de Paula, 57 anos, usou uma faca para assassinar a esposa, Eliane Vieira de Paula, 42, e, em seguida, tentar tirar a própria vida. Eliane junta-se a uma triste estatística: foi a 13º vítima de feminicídio no Distrito Federal só este ano.

Por volta da 1h, a equipe do Samu foi acionada para realizar o atendimento de uma suposta tentativa de suicídio na QNO 2, em Ceilândia. Em poucos minutos, os profissionais chegaram ao local e identificaram o corpo de Eliane em frente à casa dos fundos. A vítima teria tentado pedir ajuda ao primo, que mora na parte de trás do lote. O marido, porém, seguiu a mulher e deferiu dois golpes com a faca — um no tórax e outro no pescoço. Em seguida, introduziu a arma na própria garganta.

O primo de Eliane ainda tentou impedir a tragédia, mas não conseguiu. Ele pediu à esposa para sair de casa e chamar ajuda. Beny foi socorrido pelo Samu e encaminhado ao Hospital Regional da Ceilândia em estado grave. Segundo as testemunhas, o casal discutia antes do ocorrido.

A cor verde predomina na fachada da residência de três quartos. Com alertas de “Seja bem-vindo, mas não esqueça de trazer a sua cerveja”, a casa foi palco de um ato que chocou os moradores da região. Elaine e Beny chegaram nessa residência, em Ceilândia, há quatro anos e, de acordo com os vizinhos, que não quiseram se identificar, mantinham uma ótima relação. “Nunca escutamos brigas nem discussões. Eram sempre amorosos um com o outro. Não consigo entender o que aconteceu”, relata uma amiga da vítima.

Há seis dias, Eliane comemorou o aniversário de 42 anos. Do portão da residência, é possível ver diversos esmaltes espalhados pelo local onde a mulher exercia a profissão de manicure. Amigas e clientes estavam na rua pela manhã, visivelmente abalados. “Ela sempre foi animada. Uma pessoa muito feliz. Adorava beber uma cerveja com o Beny, mas não exageravam, era tudo moderado. Sempre frequentava churrascos na casa dela”, lamenta uma conhecida.

A manicure deixou um filho de 15 anos, que mora com a avó em uma casa próxima ao local do crime. O Correio tentou contato com os familiares, mas eles se disseram abalados para conversar com a reportagem. O flagrante foi registrado na 23ª Delegacia de Polícia (P Sul), mas seguiu para investigação na 24ª DP (Setor O). Até o fechamento desta edição, Beny seguia internado em estado grave.

Sexismo
Este ano, 32 mulheres foram mortas no DF. Dezenove delas, vítimas de homicídio. Outras 13 também perderam a vida, no entanto, no contexto de violência doméstica, tipificada como feminicídio. A subsecretária de Políticas para as Mulheres do Governo do Distrito Federal, Lúcia Bessa, aposta na conscientização das mulheres para pôr fim ao ciclo de violência. “A gente acompanha todos esses crimes com muita tristeza. A sensação é que nunca fazemos o suficiente.” Segundo ela, o governo tenta garantir um ciclo de empoderamento para que a violência contra as mulheres acabe, seja ela doméstica, seja em qualquer outro contexto. “Criamos grupo de trabalho contra o feminicídio e outras violências, disseminamos informações, quanto à Lei Maria da Penha e ao feminicídio, em colégios, igrejas e administra&cc edil;ões regionais. Reunimos lideranças, mulheres, homens, crianças, e explicamos os motivos pelos quais nós, mulheres, estamos morrendo”, destacou.

Ativista do Fórum de Mulheres do DF e Entorno, a assistente social Guaia Monteiro Siqueira destaca a importância de não desqualificar a vítima. “Existe, no país, um genocídio contra a população negra. Eu sei que o uso de drogas cresce entre a juventude e é fruto de toda uma cultura, mas isso não tem que ser o centro da questão.” Guaia esteve no MPDFT, na semana passada, com ativistas do movimento feminista e familiares e amigas de Katyane para pedir que o órgão acompanhe as investigações da 5ª e da 33ª DP. “Não podemos reduzir essas três mortes a dívidas de drogas. Há, ainda, um histórico de não conclusão das investigações. A sociedade é patriarcal e justifica a violência contra a mulher. O movimento feminista denuncia isso há anos”, criticou.

Com informações de Luiz Calcagno e Camila Costa