Governo do Distrito Federal
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25/07/13 às 18h08 - Atualizado em 29/10/18 às 11h13

Nota de repúdio ao cartaz machista erguido em trote da UnB

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O Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) divulgou ontem 25, o resultado do vestibular de 2013 da UnB. As (os) candidatas (os) aprovadas (os) reuniram-se no campus da Asa Norte, ainda na tarde de ontem, para comemorar a aprovação e passar pelo famoso trote.

Desde então, circula pelas redes sociais a imagem de alunos da UnB, supostamente dois estudantes do curso de Engenharia de Redes da instituição, segurando cartazes que fazem apologia ao estupro (“Caiu na redes é… Estupro”).

O cartaz tratou as mulheres como objetos, depreciando sua integridade e desmerencendo-as enquanto sujeitos. Este tipo de trote advém do período militar, quando a calourada tinha uma função social de contestação e crítica dos estudantes. Atualmente, perdeu-se essa função e se estabeleceu como um ritual com uma ideia de dominação de “quem sabe mais” sobre aquele que “sabe menos”.

E não é a primeira vez que isso acontece. Em 2011, durante um trote da turma de Agronomia, as mulheres eram obrigadas a lamberem uma linguiça coberta com leite condensado, simulando o sexo oral. Quem incitou a prática foi o presidente do Centro Acadêmico, que ainda estava vestido de mulher e sustentando uma faixa presidencial. À época, a universidade formou uma comissão para investigar os trotes violentos, machistas e racistas.

Os trotes deveriam ser momentos de integração entre ingressantes e estudantes em curso, mas deixam de cumprir esse papel e transformam-se em momentos de humilhação, violência, opressão. O papel da denúncia é o de explicitar que essas situações, desde as imagens que mercantilizam as mulheres, como por exemplo, os cartazes de propaganda de cervejas e automóveis nos quais as mulheres aparecem semi-nuas e como se fossem os produtos à venda, até a violência, inclusive sexual, mediante algumas ações as quais as mulheres são expostas.

A Secretaria de Estado da Mulher questiona, fortemente, a tolerância e até da incitação do estupro na sociedade, que coloca a vítima como culpada pelo assédio. Há uma simbologia dentro da sociedade que justifica o estupro e ainda o incita. A cultura não envolve só o estupro, mas o assédio sexual e o homem achar que pode mexer com a mulher na rua ou passar a mão nela. É pensar que a mulher está disponível e que todos tem livre acesso a ela.

É importante lembrar que o crime de estupro está previsto no artigo 213 do Código Penal, com a seguinte redação: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. A pena é de seis a dez anos de reclusão.

A entrada da mulher no mercado de trabalho, conquista que muitos defendem como a tese de que o machismo acabou, não significa que ela deixou de ser minorizada e explorada. A dificuldade da mulher de se fazer ouvir sem ser desmerecida, em espaços tradicionalmente compostos por homens – como os cursos de engenharia -, acaba levando-a à necessidade de se “masculinizar” e, quem sabe assim, ser aceita em um determinado grupo social.

Torno público o meu repúdio, e de toda a equipe da Secretaria de Estado da Mulher, quanto a esses atos de machismo e violência contra as mulheres durante as calouradas. Situações assim colocam em debate a objetificação da mulher, a opressão que elas sofrem – algumas, sem ao menos se darem conta – e o constrangimento que muitas delas passam para poder se encaixar em um ambiente universitário. Esse tipo de “brincadeira” é inteiramente ofensiva ao considerarmos que mulher ainda é oprimida todos os dias na sociedade.

A Secretaria da Mulher respeita a autonomia da Universidade de Brasília e sugere que atividades educativas acerca da violência de gênero e de todas as formas de violência e discriminação perpetradas nos trotes sejam trabalhadas periodicamente no âmbito da UnB. Estas situações são totalmente incompatíveis com a democracia. Considerando o papel da universidade na construção de uma sociedade democrática, as iniciativas tornam-se emergenciais.

A luta contra a sociedade patriarcal, que denota a mulher uma condição de subserviência e subjugação, deve ser superada, estabelecendo, assim, uma humanidade baseada na equidade de gênero. E este é um compromisso a ser assumido por todas e todos.

Olgamir Amancia |Secretária de Estado da Mulher

Foto: Reprodução Facebook