Governo do Distrito Federal
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20/04/16 às 18h22 - Atualizado em 29/10/18 às 11h14

Projeto Abril Indígena leva estudantes do Paranoá a aldeia no Noroeste

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Nesta 3ª feira, 19 de abril, alunos do 3º ano do Centro de Ensino Médio 1 (CEM 1) do Paranoá visitaram a AldeiaTekohaw e o Santuário dos Pajés, na área indígena do Setor Noroeste que abriga índios Guajajara, Wapichana, Tuxá e Kariki-Xocó.

Parte do projeto Abril Indígena, uma iniciativa da Secretaria de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh), a visita quebrou a rotina escolar e a abordagem didática tradicional,

“Este tipo de atividade é mais próximo do que preconiza a lei 12.645/2008, que formalizou a inclusão curricular da história e da cultura indígena”, destacou Murilo Mangabeira, diretor de políticas de diversidade étnico-racial.

Acompanhados da professora de português e literatura Myriam Batalini e do professor de história Daniel Santos, os cerca de 45 alunos do CEM 1 puderam ter um tipo de contato com a realidade indígena contemporânea.

Pintura

“Ano passado, no 2º ano, eles estudaram o romantismo, que fazia uma abordagem determinada do índio, este ano vão adentrar no modernismo, cuja abordagem é outra”, disse a professora Myriam, lembrando os versos irônicos do “antropofágico” Oswald de Andrade, segundo os quais o português vestiu o índio porque o tempo estava nublado, caso fizesse sol o índio é que teria despido o português.

Quando chegaram, parte dos alunos e alunas foi seduzida pela pintura corporal. “A tinta é produzida a partir da casaca raspada do jenipapo”, explicava Lucielde, enquanto desenhava, com a solução preta como o urucum, o pulso da estudante Jaqueline. Segundo ela, o pequeno triângulo que inscrevia invertido em outro maior representa a entrada de uma menina na puberdade e seu retiro a uma casa, no período da “tocaia”.

Ciceroneados por Francisco Guajajara, os estudantes rumaram pela trilha que leva ao Santuário dos Pajés, onde – após orientação para cada um “pedir licença” antes de entrar no espaço sagrado – conheceram seu intrigante templo.

Superadobe

Construído com base em uma técnica denominada superadobe, constituída da superposição de argila ensacada, o prédio tem uma abóbada aberta, por onde não chove. Segundo Márcia Guajajara, o prédio foi construído com orientação de um índio norte-americano, um dos muitos indígenas “em trânsito” que encontram abrigo no Noroeste desde que “índios candangos” se fixaram no lugar, quando chegaram à capital na leva de pessoas que vinham trabalhar na construção civil.

Os alunos fotografaram, filmaram e gravaram – em celulares, só na retina ou, pelo semblante de alguns, até na alma – cânticos indígenas puxados em reverência a Santxê, o índio tapuia, pioneiro do Noroeste, que liderou a resistência indígena à época da construção do bairro.

Viúva de Santxê, e mãe de Juninho (Santxê Júnior), Fetxá e da menina Zahy, Márcia  sabe algo da história de cada objeto. A imagem de um índio, guardião de matas, foi doada por Pai Lilico, liderança espiritual das religiões de matrizes africanas; um cristal de quartzo grande foi presenteado por pajé boliviano; um martelo de madeira, por pajé de Roraima.

Em molduras fotográficas, em tamanho ampliado já esmaecidas, destacam-se Santxê, menino, e também a foto de sua bisavó e avó juntas – sendo que, Maria Veríssimo, aos 103 anos, ainda vive na aldeia, em Pernambuco, de acordo com Márcia.

Estereótipos

Ainda no interior do templo, Júnior Xukuru, assessor da Diretoria de Promoção Étnico-Racial da Sedestmdih, contou um pouco da história do Santuário e da importância de os estudantes ajudarem a defender os indígenas de preconceitos muito arraigados na cultura branca, como o de que “índio não trabalha” ou “é vagabundo”.

“O índio trabalha, sim”, mas com senso de medida, conservação e compartilhamento, disse Xukuru. “Primeiro”, disse, “a gente pesca só o que precisa para comer; segundo, a gente não é ambicioso, não pesca para transformar os peixes em dinheiro; e, terceiro, entre nós, onde come um, comem dez”

Saindo por porta diferente da que entraram – “Santuário, onde se entra, não se sai” –, os alunos conheceram parte da atividade de cultivo local, a partir das explicações de Aldenora Wapichana.

Trabalho

Aldenora falou sobre o cultivo das mudas de maracujá; o Sistema Agroflorestal Ecológico, que preconiza a adoção moderna de cuidados que para os índios são tradicionais; mostrou a área de subsistência, com várias culturas misturadas – “como na floresta” e adubadas a partir de restos de planta, água e adubo mineral; e demonstrou preocupação com o reaproveitamento dos resíduos sólidos.

“Não precisamos de cesta básica”, disse Aldenora, indagada sobre “em que podemos lhes ajudar”. Ela frisou que a comunidade indígena do Noroeste precisa de multiplicadores contra o preconceito e da colaboração de pessoas que compreendam a cultura indígena para além de todos os estereótipos culturais, inclusive quanto a aparência.

“Há índios de todos os tipos”, disse ela, destacando que ela própria não se enquadra no estereótipo do “cabelo liso preto e do rostinho quadrado”.